Material Didático




 

Classificação das Epilepsias e Síndromes Epilépticas

 

Elza Márcia Targas Yacubian

Unidade de Pesquisa e Tratamento de Epilepsias (UNIPETE), Departamento de Neurologia e Neurocirurgia, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, Brasil

 

 

Resumo

 

Objetivos: A Classificação das Epilepsias e Síndromes Epilépticas de 1989 é ainda a classificação oficialmente aceita pela International League against Epilepsy (ILAE). Entretanto, o Grupo de Trabalho em Classificação e Terminologia daquele órgão tem discutido e publicado suas avaliações em um processo dinâmico cujo objetivo maior é a identificação dos estudos necessários para a elucidação das incertezas permitindo a elaboração de novas classificações com bases sólidas.

Métodos: Revisão das comunicações da ILAE de 1989, 1993, 2001, 2005 e 2006 relacionadas à classificação das epilepsias.                         

Resultados e conclusões: Apresentamos e discutimos as síndromes epilépticas listadas segundo a idade de início em 2006. Considere este texto como um resumo dos aspectos que estão sendo considerados pela ILAE na preparação de uma nova classificação das epilepsias e síndromes epilépticas.

 

Unitermos: Síndromes epilépticas; definições; classificações.

 

 

Abstract

 

Classification of Epilepsies and Epileptic Syndromes

 

Objective:  The 1989 Classification of Epilepsies and Epileptic Syndromes is still the official classification accepted by the International League against Epilepsy (ILAE). However, its Task Force on Classification and Terminology has been discussing and publishing its evaluations in an ongoing dynamic process aiming at the identification of research necessary to clarify remaining issues of uncertainty to pave the way for new classifications.               

Methods:  Review of the 1989, 1993, 2001, 2005 and 2006 communications of the ILAE regarding epilepsy classification.

Results and conclusions: Epilepsy syndromes as listed in 2006 by age of onset and related conditions is presented and discussed. This text needs to be considered as a review of the aspects that have been discussed by the ILAE in the preparation of a new classification of epilepsy syndromes and epilepsies.

 

Key words: Epilepsy syndromes; definitions; classifications.

 

 

 

Definições

 

Há duas definições de epilepsia: uma conceitual e a outra, operacional, a qual foi proposta para estudos epidemiológicos.

 

Definição conceitual: Epilepsia é um distúrbio cerebral caracterizado pela predisposição persistente do cérebro para gerar crises epilépticas e pelas conseqüências neurobiológicas, cognitivas, psicológicas e sociais desta condição. A definição de epilepsia requer a ocorrência de pelo menos uma crise epiléptica. Como a epilepsia não é uma entidade nosológica única, mas advém de várias condições diferentes que ocasionam disfunção cerebral, alguns preferem o uso do termo no plural “epilepsias”, mas a Comissão de Terminologia da International League against Epilepsy (ILAE) preconiza seu uso no singular, embora reconheça esta diversidade8. Os três elementos necessários para a definição de epilepsia estão no Quadro 1.

 

Quadro 1. Elementos necessários para a definição de epilepsia.

 

1. História de pelo menos uma crise

A crise não necessita ser “não provocada” desde que exista uma predisposição persistente do cérebro para gerar crises epilépticas

2. Predisposição persistente do cérebro

É a parte mais importante do conceito. Assim, a ocorrência de apenas uma crise, desde que exista a probabilidade aumentada de recorrência da mesma, é suficiente para o diagnóstico de epilepsia

3. Condições associadas

Alterações neurobiológicas, cognitivas, psicológicas e sociais podem estar presentes em algumas pessoas com epilepsia

 

Definição operacional: Epilepsia é uma condição caracterizada por crises epilépticas recorrentes (duas ou mais), não provocadas por qualquer causa imediata4. Crises múltiplas que ocorrem em período de 24 horas são consideradas evento único. Um episódio de status epilepticus é considerado um evento único4.

 

Uma síndrome epiléptica é definida como um distúrbio epiléptico caracterizado pela presença de sinais e sintomas complexos que definem uma condição epiléptica única5. Os sinais e sintomas podem ser clínicos (como história, idade de início, tipos de crises e modo de aparecimento das mesmas, natureza progressiva ou não, achados neurológicos e neuropsicológicos), achados de exames complementares como EEG e estudos de neuroimagem, mecanismos patofisiológicos e bases genéticas.

 

Classificação das Epilepsias e Síndromes Epilépticas

 

A

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Classificação Internacional das Epilepsias e Síndromes Epilépticas da ILAE3 de 1989 considera quatro grupos de epilepsias:

 

1.    Epilepsias e síndromes relacionadas à localização, parciais ou focais

-          idiopáticas

-          sintomáticas

-          criptogênicas

2.    Epilepsias e síndromes generalizadas

-          idiopáticas

-          criptogênicas ou sintomáticas

-          sintomáticas

        - etiologias não específicas

        - etiologias específicas

3.    Epilepsias e síndromes indeterminadas se focais ou generalizadas

-          com sinais e sintomas de crises generalizadas e focais

-          sem sinais inequívocos de crises generalizadas ou focais

4.    Síndromes especiais

-    crises relacionadas à situações

 

Quanto à etiologia, esta Classificação definiu as epilepsias idiopáticas, ou seja, aquelas sem substrato lesional, provavelmente relacionadas à predisposição genética. Idiopático é um termo que significa que a própria epilepsia é a doença e não um sintoma de alguma outra condição. Para definir uma epilepsia como idiopática, devemos não apenas excluir achados da história clínica, dos exames físico e neurológico bem como dos testes neurofisiológicos e de neuroimagem sugestivos de natureza sintomática, como também são necessários sinais eletro-clínicos altamente sugestivos da natureza idiopática. O diagnóstico deste grupo será baseado tanto em elementos positivos como negativos.

 As formas idiopáticas se contrapõem às epilepsias sintomáticas, nas quais as crises representam um sintoma de lesão estrutural do sistema nervoso. O diagnóstico deste grupo exige a constatação de sinais clínicos que documentem a patologia cerebral subjacente à epilepsia e será baseado em elementos positivos.

A Classificação de 1989 considerou ainda as epilepsias criptogênicas, termo que significa que a etiologia da epilepsia é desconhecida ou indeterminada através dos métodos diagnósticos atualmente disponíveis, porém há dados que sugerem que as mesmas são provavelmente relacionadas a um substrato lesional.

Desde a publicação e a adoção desta proposta de 1989 como a classificação oficial das Epilepsias e Síndromes Epilépticas da ILAE seu Comitê Executivo em Classificação e Terminologia tem discutido propostas visando à adoção do formato final do esquema de uma nova Classificação1,2,6,9,10. Nesta revisão consideraremos as publicações de 19893, 19934, 20015, 20058 e 20067.

No transcorrer da última década houve necessidade da configuração dos conceitos de síndrome e de doença epiléptica5. Uma síndrome epiléptica compreende vários sinais e sintomas que definem uma condição epiléptica única que pode apresentar etiologias diferentes, enquanto as doenças epilépticas são condições patológicas que apresentam etiologia única e bem definida. Quando, por exemplo, uma síndrome idiopática tem seu gene reconhecido, ela transforma-se numa doença epiléptica. É possível que, num futuro próximo provavelmente todas as epilepsias idiopáticas se transformarão em doenças epilépticas, pois terão reconhecido seu substrato genético. O novo esquema de Classificação contempla os dois conceitos, contidos respectivamente nos eixos 3 e 4, ou seja, a Classificação das Síndromes Epilépticas e a Classificação Etiológica das Doenças Freqüentemente Associadas a Crises ou Síndromes Epilépticas5.

 

         Eixo 1

         Fenomenologia ictal: Glossário descritivo da fenomenologia ictal

         Eixo 2

         Tipos de crises: Lista das crises epilépticas

         Eixo 3

         Síndromes: Lista das síndromes epilépticas

         Eixo 4

         Etiologia: Classificação das doenças freqüentemente associadas a crises ou síndromes epilépticas

         Eixo 5

         Grau de comprometimento (adaptada da OMS)

 

 

 

Nesta nova proposição, o termo focal substitui os termos parcial e relacionado à localização da Classificação de 1989. Nela figuram as epilepsias idiopáticas, ou seja, aquelas com predisposição genética e as epilepsias sintomáticas, ou seja, as relacionadas a lesões estruturais estão agora subdividas em epilepsias límbicas e neocorticais. No último grupo aparece ainda o novo conceito de epilepsias provavelmente sintomáticas que substitui o termo criptogênico da Classificação hoje utilizada5. Todas as formas de epilepsias reflexas, tanto focais como generalizadas, aparecem agrupadas, enquanto oficialmente é reconhecido o conceito das encefalopatias epilépticas representadas por formas de epilepsia que se instalam em geral em crianças previamente normais e que cursam com deterioração cognitiva e déficits neurológicos progressivos. Nelas, acredita-se que a anormalidade persistente da atividade elétrica cerebral ao promover modificações sinápticas seja responsável por alterações permanentes nos circuitos cerebrais5. Finalmente, foram agrupados fenômenos epilépticos que não obrigam o diagnóstico de epilepsia como as crises febris (termo que substitui convulsão, termo leigo não específico por vezes aplicado de forma inapropriada na descrição da fenomenologia crítica nesta situação).

       

Classificação das epilepsias e síndromes epilépticas5

1.    Epilepsias focais idiopáticas

2.    Epilepsias focais familiares

3.    Epilepsias focais sintomáticas

4.    Epilepsias generalizadas idiopáticas

5.    Epilepsias reflexas

6.    Encefalopatias epilépticas

7.    Epilepsias mioclônicas progressivas

8.    Crises que não obrigam o diagnóstico de epilepsia

 

Em setembro de 2006, o Grupo de Trabalho em Classificação e Terminologia da ILAE publicou um novo comunicado no qual apresenta a lista das síndromes epilépticas de acordo com a idade de início das crises e outras condições a elas relacionadas7. Estas síndromes foram graduadas pelos participantes da Comissão de forma preliminar de 1 a 3, sendo 3 as síndromes melhor definidas. Estes resultados são apresentados no Quadro 2.

 

Quadro 2. Síndromes epilépticas listadas de acordo com a idade de início e condições relacionadas (ILAE, 2006)7

 

Período neonatal

Crises neonatais benignas familiares (3)

Encefalopatia mioclônica precoce (3)

Síndrome de Ohtahara (3)

Lactentes

Crises migratórias parciais do lactente (3)

 

Síndrome de West (3)

 

Epilesia mioclônica do lactente (3)

 

Crises infantis benignas (3)

 

Síndrome de Dravet (3)

 

Encefalopatia mioclônica em desordens não progressivas (3)

Infância

Epilepsia occipital benigna da infância de início precoce (tipo Panayiotopoulos) (3)

Epilepsia com crises mioclono-astáticas (3)

 

Epilepsia benigna da infância com descargas centrotemporais (3)

 

Epilepsia occipital da infância de início tardio (tipo Gastaut) (1)

 

Epilepsia com ausências mioclônicas (2)

 

Síndrome de Lennox-Gastaut (3)

 

Encefalopatia epiléptica com descargas de espícula-onda contínuas durante o sono incluindo a síndrome de Landau-Kleffner (3)

 

Epilepsia ausência da infância (3)

Adolescência

Epilepsia ausência juvenil (3)

Epilepsia mioclônica juvenil (3)

Epilepsias mioclônicas progressivas (3)

Relação com idade menos específica

Epilepsia do lobo frontal noturna autossômica dominante (3)

Epilepsias do lobo temporal familiar (3)

Epilepsia do lobo temporal mesial com esclerose hipocampal (2)

Síndrome de Rasmussen (3)

Crises gelásticas com hamartoma hipotalâmico (3)

Condições epilépticas especiais

Epilepsias focais sintomáticas não especificadas de outra forma

Epilepsia apenas com crises tônico-clônicas generalizadas

Epilepsias reflexas

      - Epilepsia occipital fotossensível (2)

      - Epilepsia primária da leitura (3)

      - Epilepsia da água quente em lactentes (3)

Crises febris plus

Epilepsia focal familiar com focos variáveis (3)

Condições com crises epilépticas que não requerem o diagnóstico de epilepsia

Crises neonatais benignas (2)

Crises febris (3)

 

 

Finalizando sua proposição de 2006, o Grupo de Trabalho em Classificação e terminologia lista os termos que provavelmente englobam várias síndromes epilépticas que apresentam características em comum: Epilepsias autossômicas dominantes; Encefalopatias epilépticas; Epilepsias generalizadas com crises febris plus; Epilepsias generalizadas idiopáticas; Epilepsias focais idiopáticas e Epilepsias reflexas. Estes grupos poderiam ser utilizados no desenvolvimento de uma nova classificação ou na modificação da classificação atual das epilepsias e síndromes epilépticas.

 

Classificação das doenças epilépticas

 

            No eixo 4 da proposta de 20015 estão classificadas as doenças freqüentemente associadas a crises ou síndromes epilépticas, ou seja, as etiologias das epilepsias, como: 1. Epilepsias mioclônicas progressivas (como a doença de Lafora, a doença de Unverricht-Lundborg); 2. Distúrbios neurocutâneos (como o complexo da esclerose tuberosa, a neurofibromatose); 3. Malformações do desenvolvimento cortical (como a displasia cortical focal, as heterotopias corticais, a esquizencefalia e polimicrogiria); 4. Outras malformações corticais (distúrbios de malformações complexas, como a síndrome de Aicardi); 5. Tumores (como os tumores indolentes do sistema nervoso – ganglioglioma, tumor neuroepitelial disembrioplástico); 6. Anormalidades cromossômicas (como a síndrome do cromossomo 15 em anel); 7. Doenças mendelianas monogênicas com mecanismos patogênicos complexos (como as síndromes de Angelman e Rett); 8. Doenças metabólicas hereditárias (como a hiperglicinemia não cetótica); 9. Encefalopatias não progressivas de natureza isquêmica ou lesões anóxicas ou infecciosas pré ou perinatais; 10. Outros fatores pós-natais como traumatismo craniano, abuso de álcool e drogas, acidentes vasculares e 11. Miscelânea como doença celíaca, doença de Alzheimer entre outras.

            As informações referentes à esta proposta de classificação podem ser encontradas no endereço eletrônico http://www.epilepsy.org/ctf.

 

Estado atual da Classificação das Epilepsias e Síndromes Epilépticas

 

A proposta da ILAE de 2001 tem sido objeto de acirrada discussão conceituale está longe de ser resolvida1,2,5,6,7,8,9,10. Um dos objetivos da atual Diretoria do órgão é finalizar o trabalho da Classificação nos próximos três anos. É possível que sejam produzidos instrumentos de classificação diferentes: uma classificação taxonômica com finalidades científicas e um manual diagnóstico flexível para propósitos práticos.

 
 

 

 

 

 

Referências

 

  1. Avanzini G. Of cabbages and kings: do we really need a systematic classification of epilepsies? Epilepsia 2003; 44(1): 12-3.
  2. Berg AT, Blackstone NW. Of cabbages and kings: perspectives on classification from the field of systematics. Epilepsia 2003; 44(1): 8-12.
  3. Commission on Classification and Terminology of the International League Against Epilepsy. Proposal for revised classification of epilepsies and epileptic syndromes. Epilepsia 1989; 30: 389-99.
  4. Commission on Epidemiology and Prognosis, International League Against Epilepsy. Guidelines for epidemiologic studies on epilepsy. Epilepsia 1993; 34(4): 592-6.
  5. Engel J Jr. ILAE Commission Report. A proposed diagnostic scheme for people with epileptic seizures and with epilepsy: Report of the ILAE Task Force on Classification and Terminology. Epilepsia 2001;42 (6): 796-803.
  6. Engel Jr. J. Reply to Of cabbages and kings: some considerations on classifications, diagnostic schemes, semiology and concepts. Epilepsia 2003; 44(1): 4-6.
  7. Engel J Jr. Report of the ILAE Classification Core Group. Epilepsia 2006; 47(9):1558-68.
  8. Fisher RS, van Emde Boas W, Blume W, Elger C, Genton P, Lee P, Engel Jr J. Epileptic seizures and epilepsy: definitions proposed by the International League Against Epilepsy (ILAE) and the International Bureau for Epilepsy (IBE). Epilepsia 2005:46(4): 470-2.
  9. Lüders H, Najm I, Wyllie E.  Reply to “Of cabbages and kings:some considerations on classifications, diagnostic schemes, semiology and concepts. Epilepsia 2003; 44(1): 6-8.
  10. Wolf P. Of cabbages and kings. Some considerations on classification, diagnostic schemes, semiology and concepts. Epilepsia 2003; 44(1):1-13.