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Epileptogênese no cérebro adulto
João Pereira Leite
Departamento de Neurologia, Psiquiatria e
Psicologia Médica, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade
Resumo
A epilepsia do lobo temporal mesial (ELTM), a forma mais freqüente de epilepsia focal
entre a população adulta, é caracteriza por perda neuronal seletiva na região hipocampal e comumente está
associada à intratabilidade. Dada a relativa simplicidade da circuitaria hipocampal e a possibiidade de se reproduzir várias características em
modelos animais, a ELTM se apresenta como o principal modelo para se testar
hipóteses sobre os mecanismos de epileptogênese das
epilepsias focais sintomáticas que se desenvolvem em decorrência um insulto
neuronal. Nesta revisão, serão
discutidas as principais hipóteses, levantadas a partir de estudos
eletrofisiológicos in vivo e in vitro em
modelos animais, que procuram explicar a hiperexcitabilidade
hipocampal na ELTM.
.
Palavras chave:
Epilepsia focal, epilepsia do lobo temporal,
epileptogênese, esclerose hipocampal,
modelos experimentais de epilepsia, reorganização sináptica, célula musgosa,
células em cesto dormentes
Mesial temporal
lobe epilepsy (MTLE), the most frequent type of focal epilepsy in adults, is
characterized by selective neuron loss in the hippocampus and is
frequently associated to intractability. Due to the relative simplicity of hippocampal circuitry and to the possibility to reproduce
several features in animal models of epilepsy, MTLE is the ideal model to test
hypotheses regarding the mechanisms of epileptogenesis
of focal symptomatic epilepsy that occur after brain damage. In this review we
discuss the current hypotheses, raised from in
vivo and in vitro electrophysiological
studies on experimental models that may explain the hyperexcitability
in MTLE.
Key words: Focal
epilepsy, temporal lobe epilepsy, epileptogenesis, hippocampal sclerosis, experimental models of epilepsy,
synaptic reorganization, mossy cells, dormat basket
cells
A
epilepsia de lobo temporal mesial (ELTM) é a forma
mais comum de epilepsia focal resistente ao tratamento farmacológico em
adultos, responsabilizando-se por pelo menos 40% de todos os casos(1). Pacientes com ELTM têm, na maioria das vezes, crises parciais
complexas que se iníciam na infância
tardia ou adolescência, no entanto, há geralmente história de um insulto
inicial como convulsão febril, hipóxia, trauma
crânio-encefálico ou infecções do SNC nos primeiros anos de vida(2).
A esclerose hipocampal é o
achado anátomo-patológico mais freqüentemente (65%)
encontrado em espécimes removidos cirurgicamente
Os modelos animais
de ELTM e as hipóteses dos mecanismos de epileptogênese
A perda
seletiva de neuronios vulneráveis, particularmente as
células musgosas e interneurônios, assim como as
células piramidais de CA1 e CA3, é o achado patológico característico da
esclerose hipocampal (4-6) e tem sido consistentemente reproduzida em modelos animais que
desenvolvem dano hipocampal após um episódio de
status epilpticus (SE) induzido quimicamente a por
meio de estimulação elétrica contínua (7-13). O conhecimento detalhado da anatomia e do funcionamento dos
componentes básicos da circuitaria neuronal é essencial
para se entender como as alterações patológicas levam à hiperexcitabilidade.
Este desafio tem sido abordado através de vários estudos que combinam
procedimentos eletrofisiológicos in vivo
e in vitro
com achados estruturais por meio de microscopia de luz e eletrônica (11, 12, 14-, 23).
As células musgosas, que compreendem
aproximadamente 50% dos neurônios da região hilar,
são muito suscetíveis a uma variedade de estímulos, embora a vulnerabilidade
destes neurônios glutamatérgicos tenha sido
recentemente questionada porque algumas clelulas
sobrevivem ao dano neuronal induzido por crises (16, 21, 23). Assim, a morte das células musgosas é considerada o elemento
estratégico em duas das hipóteses acerca da patogênese da epilepsia hipocampal, enquanto que uma terceira salienta o papel das
células musgosas que sobrevivem ao dano excitotóxico
(Figura 1)(21). Na hipótese da reorganização sináptica (Figura 1a) a perda das células
musgosas representa o gatilho mais importante para a ocorrência do brotamento
das fibras musgosas (BFMs) na camada molecular
interna do giro denteado (11), enquanto que na hipótese das células em cesto dormentes (Figura 1b) a
perda das células musgosas é o evento chave porque há a remoção da excitação
para os interneurônios inibitórios, resultando em hipoatividade da inibição (21, 24). Em contraste, a hipótese das “células
musgosas irritáveis” (Figura 1c), propõe que a intensidade na morte das células
musgosas não é tão significativa e, pelo contrário as células musgosas poderiam
fazer parte de um circuito excitatório, pois após sua
deleção foi observada uma diminuição da excitabilidade das células granulares (21, 22).

Figura 1. Hipóteses sobre o papel da morte ou sobrevida das células
musgosas no processo de epileptogênese na epilepsia
do lobo temporal. Nos cenários (a) e (b) a perda das células musgosas
(representadas em verde) é o gatilho comum para o início do processo de epileptogênese. Na
hipótese da reorganização sináptica (a), a perda da célula musgosa seria o
fator indutor para a ocorrência de colaterais axônicas
das células granulares (representadas em rosa) que se projetariam para o seu
próprio campo dendrítico, uma modificação que seria pró-epileptogênica. Na hipótese das células em cesto
dormentes (b), a perda das células musgosas é o evento chave porque ela remove
a excitação para os interneurônios inibitórios
(representadas em cor laranja) hilares sobreviventes,
resultando em uma redução da inibição e consequentemente propiciando a
ocorrência de crises. Na hipótese das células musgosas irritáveis (c) a ênfase
está no papel das células sobreviventes e não naquelas que foram lesadas. As
células musgosas remanescentes teriam uma ampla projeção sobre as células
granulares e fariam fortes conexões excitatórias ao
longo do eixo anteroposterior da fascia dentada. Adaptado
de Ratzliff, et al, 2002 (21).
Estudos em humanos e em modelos experimentais sugerem
que o BFMs desempenha um papel importante na
fisiopatologia da ELT.
Em conflito com a hipótese que atribui um papel
fundamental à atrofia hipocampal e ao BFMs, existem observações contraditórias: 1) no modelo de SE gerado por ácido caínico,
alguns animais com crises espontâneas freqüentes não apresentam perda neuronal (14, 31); 2) no modelo de SE induzido por pilocarpina ou
estimulação elétrica podem ser observadas CRE antes do aparecimento do BFMs(32, 33); 3) o bloqueio do BFMs
por cicloheximida não afeta o aparecimento das CRE
nos modelos de SE por pilocarpina e ácido caínico (34, 35); 4) nos modelos de abrasamento e de SE
por estimulação elétrica da amígdala não necessariamente há uma correlação
positiva entre a ocorrência de CRE, gravidade das crises ou rapidez na
progressão da epileptogênese e a intensidade do BFMs (33, 36).
Os dados dos estudos experimentais, bem como
observações em tecido hipocampal removido de
pacientes ELTM sugerem que o BFMs pode contribuir
para a hiperexcitabilidade da circuitaria
hipocampal, mas não é o elemento único necessário
para a gênese das crises. Provavelmente este tipo de reorganização axonal é mais importante na progressão da ELTM(36).
Embora a ELTM
seja a principal forma de epilepsia focal sintomática e se destaque das demais
etiologias pela relevância e alta prevalência, as hipóteses aqui levantadas
acerca dos mecanismos de epileptogênese talvez não
seja extensível a todas as formas de epilepsia sintomática, particularmente as
de origem neocortical, onde a citoarquitetura
e conectividade é mais complexa. Adicionalmente, outros mecanismos têm sido
propostos, além daqueles relacionados às alterações plásticas decorrentes da
perda específica de neurônios após um insulto cerebral. Estes podem envolver
alterações que ocorrem no neurópilo em decorrência de
gliose, deformações na árvore dendrítica,
alterações na distribuição e composição de receptores excitatórios
e inibitórios ou ainda alterações na eficiência sináptica dos circuitos
remanescentes. O entendimento do papel
destes outros mecanismos no processo de epileptogênese
constitui um dos grandes desafios da epileptologia
atual, visto que através da compreensão destes mecanismos será possível
identificar compostos que tenham efeito antiepileptogênico.
A identificação de drogas que interrompam o processo de epileptogênese
abrirá uma nova vertente na terapêutica da epilepsia. Ainda hoje a grande
maioria das drogas utuilizadas têm sua eficácia
comprovada basicamente na supressão das crises, atuando
portanto sobre os sintomas da epilepsia, e carecem de efeito sobre o
processo de epileptogênese.
Apoio financeiro: CNPq (Processo 474338/2006-1), CAPES, and FAPESP(Projeto
CInAPCe projeto Nº 05/56447-7).
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