| Material Didático | ||
Modelos Experimentais
de Epilepsias Generalizadas
Norberto Garcia-Cairasco Laboratório de
Neurofisiologia e Neuroetologia Experimental.
Departamento de Fisiologia. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, USP. E-mail: ngcairas@fmrp.usp.br
As epilepsias correspondem a um conjunto de distúrbios do
sistema nervoso central, decorrente de descargas excessivas e anormais de neurônios,
geralmente associadas à hipersincronismo e/ou hiperexcitabilidade (Engel, 2001).
Dentre os quadros epilépticos mais graves encontram-se as crises denominadas
generalizadas ou mesmo as síndromes epilépticas correspondentes, na
classificação da International League Against Epilepsy (ILAE; Commission, 1981; Commission,
1989). Nas classificações da ILAE, os
critérios clínicos e eletrencefalográficos constituem
os pilares para diferenciar crises parciais (ou focais) das generalizadas. Mais
recentemente, outros métodos complementares tais com os de imagem funcional
(SPECT, fMRI) têm sido
usados para melhorar o diagnóstico
Embora se fale ao logo das décadas que as crises ou mesmo
as epilepsias focais sejam aquelas nas quais o início é observado em áreas
localizadas, e as generalizadas, ao contrário, teriam como início descargas
sincrônicas provenientes de ambos os hemisférios cerebrais, estudos mais
recentes mostram como mesmo nas chamadas crises generalizadas
primárias, é possível encontrar, não infreqüentemente,
atividade focal, ou ao menos uma franca assimetria no início das descargas
(Lopes da Silva, 2006; Engel, 2006). Para revisões e
discussões recentes sobre classificação das epilepsias, veja Lüders et
al (2000; 2006); Engel et al, 2006.
Na classificação original das epilepsias (Commission, 1989) as epilepsias foram diferenciadas como
sintomáticas ou idiopáticas, segundo a presença de
causa conhecida ou uma susceptibilidade herdada para apresentar crises. Mais
recentemente estes critérios para a classificação estão sendo reavaliados, o que tem tido como efeito a inclusão de
fatores semiológicos e quando necessário a incorporação de resultados de imagem
funcional (Engel, 1998; Lüders
e cols., 1998; Engel e cols., 2001).
Na presente aula serão discutidos os modelos
experimentais que mimetizam (1) a situação denominada clinicamente de ausência
típica, correspondendo EEGráficamente
ao complexo ponta-onda lenta (3 ciclos por segundo); (2) as crises mioclônicas com ênfase nas fotomioclonias
e (3) as crises generalizadas tônico-clônicas. As
ausências serão discutidas em modelos que induzem hipersincronismo,
geralmente após aplicação sistêmica ou mesmo central (tálamo-cortical), de
drogas em animais experimentais, assim como em mutantes que expressam o
fenótipo das ausências ou em cepas geneticamente selecionadas
(Marescaux
et al, 1999; Hosford, 1999, 1995; Avoli et al, 1987, 2006, Urrestarazu, 2006 Steriade, 2006). As crises fotomioclônicas
serão exemplificadas pelo modelo do babuíno (Papio papio)
fotossensível (Garcia-Cairasco, 1999) e as crises generalizadas
tônico-clônicas serão exemplificadas pelo modelo de
crises audiogênicas (Garcia-Cairasco et al, 1993; Garcia-Cairasco,
2002; 2006).
No último caso discutiremos a diferença entre crises
generalizadas tônico-clônicas, que acontecem
agudamente (Faingold, 2004), e aquelas que se repetem
permitindo estudar fenômenos comportamentais (Fentress,
1992; Garcia-Cairasco et al, 1996), EEGráficos (Moraes et al, 2000), celulares (Romcy-Pereira
et al, 2003; Galvis-Alonso et al, 2004) e moleculares (Gitai et al, 2006) que acontecem
durante a expressão do estado crônico destes processos.
Uma publicação de fôlego e de excelente qualidade, entre
outras, é o livro recentemente publicado sobre uma inúmera variedade de modelos
experimentais de crises e de epilepsias (Pitkanen et al,
2006), obviamente transcendendo às generalizadas. Verifique também a revisão
sobre modelos agudos e crônicos de crises e epilepsias generalizadas tônico-clônicas em Garcia-Cairasco
(2006).
Agradecimentos. Às
Fundações e Instituições de apoio à Pesquisa FAPESP, CNPQ, PADCT, PRONEX,
CAPES-PROEX e FAEPA, pelo apoio financeiro. Aos membros do Laboratório de
Neurofisiologia e Neuroetologia Experimental do
Departamento de Fisiologia da FMRP-USP. Ao Prof. Dr. Esper Abrão Cavalheiro,
pelo convite para participar desta excelente experiência.
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