| Material Didático | ||
Eletrodos esfenoidais e outros eletrodos
basais na avaliação da epilepsia do lobo temporal
Renata
* Serviço de Epilepsia, Hospital Clementino
Fraga Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro
** Unidade de Pesquisa e Tratamento de
Epilepsias (UNIPETE), Departamento de Neurologia e Neurocirurgia, Universidade
Federal
Resumo
Objetivos: Foi
realizada revisão da literatura para determinar se eletrodos esfenoidais podem
ou não ser substituídos por outras modalidades de eletrodos de superfície
durante a monitorização por vídeo-EEG em indivíduos com epilepsia temporal
mesial.
Métodos:
Revisão de 17 artigos publicados principalmente nas décadas de 70 e 80 quando
se estabelecia a metodologia para monitorização prolongada por vídeo-EEG.
Resultados e conclusões: Concluímos que os eletrodos esfenoidais são superiores aos
eletrodos de superfície e seu uso é recomendado durante avaliação por vídeo-EEG
Unitermos: Vídeo-EEG;
eletrodos de superfície; eletrodo esfenoidal; epilepsia do lobo temporal.
Abstract
Sphenoidal and other basal electrodes
in the evaluation of temporal lobe epilepsy
Objective: Literature review to determine if depth
sphenoidal electrode may be substituted by surface sphenoidal electrode or
surface anterior temporal electrodes in video-EEG recordings for diagnosis of
mesial temporal lobe epilepsy.
Methods: Review of 17
articles published in the 70’s and 80’s when methodology for prolonged
video-EEG monitoring was being considered in epilepsy centers.
Results and conclusions: Sphenoidal
electrodes are superior compared to other types of surface anterior temporal
electrodes and its use is recommended for prolonged video-EEG monitoring of
patients with temporal lobe epilepsy.
Key words: Video-EEG;
surface electrodes; sphenoidal electrodes; temporal lobe epilepsy.
A epilepsia do lobo temporal é
a mais freqüente entre as epilepsias refratárias ao tratamento medicamentoso e
responde satisfatoriamente à intervenção cirúrgica. Na avaliação pré-operatória
é preciso caracterizar os fenômenos clínicos ictais e a localização e
lateralização da zona epileptogênica. Para isso são realizados diversos exames
complementares, entre os quais, o EEG interictal, na busca da localização das
descargas epileptogênicas (DE).
O Sistema 10-20 de colocação de
eletrodos possui limitação para detectar alterações do lobo temporal,
especialmente as das regiões anteriores, pois os eletrodos F7 e F8,
considerados como temporais anteriores, ficam sobre o lobo frontal, no qual
ocupam posição posterior e inferior e logo anterior ao lobo temporal10.
Há discussão se os eletrodos F7 e F8 colocados nesta área anatômica realmente
registram a atividade do lobo temporal.
Silverman13 descreveu a
utilização do eletrodo temporal anterior para localização de descargas no lobo
temporal. Esses eletrodos, chamados de T1 e T2, eletrodos temporais verdadeiros
ou de Silverman, são colocados
Segundo o mesmo autor, os eletrodos
frontais inferiores não deveriam ser designados como temporais anteriores. Além
disso, apresentam a desvantagem de registrar mais os artefatos de movimentos
oculares do que os eletrodos T1-T2.
Lüders et al.7
desenvolveram um sistema de colocação de eletrodos para auxiliar na localização
mais precisa da zona epileptogênica. Para estes autores, como o registro pelo
Sistema 10-20 era insatisfatório para a localização das descargas das
epilepsias do lobo temporal fazia-se necessária a utilização de um número maior
de eletrodos e, muitas vezes, de eletrodos basais; em
Além dos eletrodos do Sistema 10-10,
foi preconizada a utilização de eletrodos basais para o registro da atividade
mesial temporal que podiam mostrar correlações com a história clínica ou com o
tipo clínico da crise. Com a utilização de eletrodos adicionais, áreas
epileptogênicas ambíguas puderam e passaram a ser localizadas corretamente.
Eletrodos basais do lobo temporal
Os dois eletrodos mais usados para
investigação por tempo prolongado são os nasofaríngeos e os esfenoidais.
Eletrodos nasofaríngeos
Grinker e Serota (apud Morris
e Lüders8), em 1938, foram os primeiros autores a utilizarem os
eletrodos nasofaríngeos para estudo de estruturas mesiais profundas e seu valor
para o registro da atividade elétrica das mesmas.
Hill, Gastaut e Roubicek em 1948 e
McLean, em 1949 (apud Morris e Lüders8) descreveram eletrodos
colocados através de cada narina, sem anestesia local, repousando na porção
posterior da nasofaringe. Os eletrodos eram usados em montagens bipolares que
incluíam os eletrodos nasofaríngeos (Pg1-Pg2) e os auriculares (A1-A2). Estes
eletrodos possuem uma estrutura esférica de prata na ponta que é a fonte do
registro. Binnie et al.1 compararam descargas registradas pelos
eletrodos T1-T2 e nasofaríngeos em 15 pacientes; 14 deles mostraram maior
amplitude das descargas nos eletrodos temporais anteriores e nasofaríngeos.
Somente dois mostraram amplitude máxima nos nasofaríngeos de mais de duas vezes
a amplitude dos temporais anteriores. Entretanto, nenhum dos focos deixou de
ser registrado pelo eletrodo temporal anterior. Sperling e Engel15
realizaram um estudo prospectivo com 103 EEG
Eletrodos esfenoidais
Introduzidos por Jones (apud Reilly11)
em 1951, estes eletrodos são inseridos, sob anestesia local com técnicas
estéreis, entre o zigoma e o ponto sigmóide da mandíbula, até ficarem em
contato com a base do crânio, lateral ao forame oval, permitindo registros da
atividade basal do lobo temporal e da região fronto-orbitária. Uma vez
inseridos são considerados bem tolerados, relativamente livres de artefatos
podendo ser utilizados por dias ou semanas.
Método de colocação (Sindrup
et al.14): os eletrodos são inseridos a uma distância de
Kristensen e Sindrup, em 1978 (apud
Morris e Lüders8), utilizando eletrodos esfenoidais, encontraram
ondas agudas em 16% de 194 pacientes com crises parciais complexas que não
apresentavam DE em registros com eletrodos de superfície. Feng et al.3 descreveram uma
técnica utilizando agulhas de acupuntura como eletrodos esfenoidais.
Eletrodos mini-esfenoidais
Como a utilização dos eletrodos
nasofaríngeos e esfenoidais era acompanhada de certo desconforto para o
paciente, em 1960, Rovit et al. (apud Laxer6), utilizaram
eletrodos mini-esfenoidais sub-dérmicos posicionados da mesma maneira que os
eletrodos esfenoidais, em direção ao forame oval.
Método de colocação (Laxer6): os eletrodos são colocados em cada lado da face,
aproximadamente
Laxer6 estudou 100 EEG de
pacientes ambulatoriais com prováveis crises de natureza epiléptica. Em cada
paciente utilizou a montagem bipolar com eletrodos mini-esfenoidais e 5
pacientes internados com foco epileptogênico mesiotemporal conhecido também
tiveram seus registros obtidos simultâneamente com uso de eletrodos esfenoidais
tradicionais e com eletrodos mini-esfenoidais. Destes 100 pacientes que tiveram
registros com eletrodos mini-esfenoidais, 40 não apresentaram anormalidades e
em 26 os registros foram considerados anormais, não permitindo a localização
precisa da área irritativa. Trinta e quatro mostraram alteração epileptiforme,
dos quais 21 com foco mesiotemporal com reversão de fase no plano coronal no
eletrodo mini-esfenoidal ou zonas de equipotencialidade entre os eletrodos
mini-esfenoidais e os eletrodos temporais laterais (T3-T4). Naqueles 5
pacientes que tiveram registros com eletrodos esfenoidais, as descargas
epileptiformes foram confirmadas pelos eletrodos mini-esfenoidais, embora cerca
de 30% menor em amplitude. Este estudo demonstrou que esses eletrodos
adicionavam informações não fornecidas pelo EEG de escalpo tradicional e
semelhantes às obtidas através dos eletrodos esfenoidais, embora de menor
amplitude.
Eletrodos zigomáticos
Introduzidos por Sindrup
et al.14, em 1981, são utilizados para distinguir descargas
originadas nas estruturas basais das laterais do lobo temporal. Os eletrodos
são colocados sobre a pele acima do arco zigomático e acima do ponto
mandibular. A razão para sua escolha reside no fato de que a distância do
complexo amigdalohipocampal para o
eletrodo zigomático, é menor do que a distância dessa estrutura até os
eletrodos temporais anteriores (F7-F8) ou médios (T3-T4) .
Sindrup et al.14, selecionaram 25
pacientes com crises parciais complexas e descargas focais em lobo temporal
registradas pelos eletrodos esfenoidais e temporais anteriores. Em 19 pacientes
a atividade focal estava localizada na porção basal e em 6 na porção lateral do
lobo temporal. Três desses 19 pacientes
com descargas basais (16%) não apresentaram descargas na superfície, 3 (16%)
mostravam descargas no eletrodo zigomático, mas não nos temporais laterais e
outros 3 (16%) somente tiveram descargas registradas pelo eletrodo esfenoidal.
Dessa forma, em 79% (15 de 19) dos pacientes, os eletrodos de superfície
(zigomático e temporal) foram suficientes para detectá-las. Na Tabela 1 é mostrada
a amplitude das descargas dos eletrodos zigomáticos comparativamente à dos
eletrodos esfenoidais.
|
|
Esfenoidal ³
Superfície |
Esfenoidal < Superfície |
|
|
Zigomático < Temporal |
1 |
5 |
6 |
|
Zigomático ³ Temporal |
15 |
1 |
16 |
|
|
16 |
6 |
22 |
Ainda existem muitas dúvidas quanto à
variedade de eletrodos e técnicas de registro a serem utilizadas em epilepsia
do lobo temporal. Todos os métodos possuem vantagens e desvantagens8.
Seguem-se as principais discussões referentes às diferentes formas de avaliação
dos registros interictais e ictais.
EEG interictal
A
Figura 1 mostra as linhas do campo das descargas das estruturas mediais
temporais e a situação dos eletrodos F7 e F8, zigomáticos e esfenoidais.

Figura
Homan et al.5,
em 1987, utilizaram eletrodos temporais anteriores para registro de crises
parciais complexas em 126 pacientes tendo encontrado que, em alguns deles, os
eletrodos T1-T2 foram significativamente superiores aos do sistema 10-20 na
detecção de DE e os eletrodos esfenoidais possibilitaram a detecção de
descargas em um número pequeno, não significante de pacientes.
Os eletrodos esfenoidais são
considerados mais seguros que os nasofaríngeos para localização de descargas
ictais e interictais, mas suas vantagens são também questionadas. Binnie et al.2
estudaram 165 focos registrados em 111 pacientes com DE anterobasais temporais,
concluindo que:
1. Em 163 focos, pelo
menos 90% das descargas registradas pelo eletrodo esfenoidal, também foram
detectadas pelos eletrodos de superfície. Nos dois restantes, descargas
registradas exclusivamente pelo eletrodo esfenoidal corresponderam a 23 e 49%
do total das descargas registradas.
2. Em seis pacientes que
tiveram implantação de eletrodos esfenoidais com contactos múltiplos, houve um
gradiente de amplitude da profundidade para a superfície com uma diferença de
amplitude de 11-47%. Portanto, neste trabalho ficou evidenciado que o registro
do eletrodo mini-esfenoidal não é equivalente ao eletrodo esfenoidal.
3. Em 39 pacientes
submetidos à cirurgia, lesões mesiais foram associadas com descargas máximas
nos eletrodos esfenoidais, enquanto lesões inespecíficas difusas ou patologia
temporal lateral foram associadas a descargas máximas nos eletrodos temporais
médios.
Os eletrodos esfenoidais permitem
registros do aspecto basal mesial do lobo temporal e da região fronto orbitária
e segundo Reilly11, a utilização destes eletrodos aumentou a chance
de aparecimento de anormalidade em 40,5% em pacientes com epilepsia que não
apresentavam qualquer alteração no EEG em sono e/ou vigília.
Wilkus e Thompson16, em
1984, realizaram um estudo utilizando RX de crânio estereoscópico em 33 pacientes
submetidos à EEG de longa duração com uso de eletrodo esfenoidal. Foi
evidenciado que ocorria uma mudança de posição do eletrodo esfenoidal ao longo
do período de monitorização EEG (em média 5,12 dias). Foi verificado que as
extremidades dos eletrodos esfenoidais, que no início encontravam-se em média a
Goodin et al.4, em novo
estudo sobre detecção de DE por métodos não invasivos em 50 pacientes com
crises parciais complexas, conhecidas ou suspeitadas, evidenciaram que o uso do
eletrodo mini-esfenoidal não se justificaria, porque outros eletrodos de
escalpo aplicados segundo o sistema 10-10, poderiam trazer a mesma informação.
Frente aos dados acima
discutidos, durante a monitorização com vídeo-EEG preconiza-se a utilização de
rotina de eletrodos esfenoidais para a avaliação
EEG ictal
O EEG de superfície em
crises parciais complexas do lobo temporal mostra freqüentemente um padrão
rítmico a 5 Hz facilmente reconhecido.
Risinger et al.12
verificaram que a presença de descargas rítmicas a 5 Hz ou mais rápidas nos
primeiros 30 segundos do registro ictal com eletrodos de escalpo e esfenoidais
(denominado por estes autores de padrão focal inicial) foi capaz de predizer os
achados de registros invasivos com eletrodos de profundidade em 94% dos casos.
Yves et al.17,
em registros ictais de 42 pacientes submetidos à lobectomia temporal
anteromesial, compararam montagens com e sem eletrodos esfenoidais e concluíram
que a inclusão destes permitiu o reconhecimento de 19% das crises que eram
inaparentes com a montagem temporal convencional além de proporcionar a
identificação mais precoce da atividade ictal, em geral 5 segundos antes de seu
registro pela montagem convencional, em 70% das crises.
Pataraia et al.9
analisaram os padrões de 118 crises eletrográficas em 24 pacientes com
epilepsia mesial de lobo temporal unilateral definida por crises sugestivas do
lobo temporal, sinais de esclerose hipocampal à RM e descargas interictais
unilaterais. Após exclusão de 6 crises por artefatos, 112 crises foram
incluídas no final da análise. O número de crises para cada indivíduo variou de
Referências